Sabor, história e energia

Uma pane no sistema de um avião fez com que Tibiriçá Thompson, um amazonense de família portuguesa, parasse em Cuiabá em 1964. A viagem que seria de Manaus para São Paulo foi interrompida na capital mato-grossense e, apesar de parecer um problema na época, tornou-se a grande mudança na vida da família – e, também, da cidade.

 

Foi durante as horas em Cuiabá que Tibiriçá conheceu um italiano chamado Giovane, que já estava com 80 anos e queria passar para alguém seu comércio de guaraná. Ele trazia os bastões de Corumbá, e, com a idade avançada, preocupava-se com a perpetuação de seu trabalho. Tibiriçá foi o escolhido e, a partir daí, construiu um império do guaraná na capital mato-grossense.

 

Após conversar com Giovane e conhecer os clientes dele, Tibiriçá voltou a Manaus e decidiu seguir seus conselhos. Dois meses depois, estava de volta a Cuiabá com 300 quilos de guaraná, que foram vendidos em apenas dois dias. Nesta segunda viagem, o italiano já havia falecido, e o novo comerciante teve de descobrir sozinho como continuar o negócio.

 

A história do ‘percursor’ do guaraná foi contada em um livro produzido por sua própria família para se aniversário de 80 anos, em 2008. Ele faleceu aos 81, mas o legado continua e, hoje, a marca ‘Guaraná Tibiriçá’ está não só em Cuiabá, mas também é distribuída em outros estados.

 

“Já se tomava guaraná aqui desde Marechal Rondon. Eles iam nas trilhas colocando os telégrafos e tomavam o guaraná pra viajar, pra andar no mato”, conta o filho de Tibiriçá, que carrega o mesmo nome do pai. “O guaraná vinha por Corumbá. Era muito demorado, muito caro, e meu pai começou a trazer via Porto Velho. Primeiro, ele começou a vender aos poucos, de 1964 até 1971. Aí em 1971 eu vim para cá com ele, compramos uma casa na Avenida Thogo Pereira e abrimos a primeira loja. Ficamos 11 anos lá, de lá passamos para cá, onde estamos desde 1982”. Atualmente, a loja da família fica no Porto, na Avenida Mário Corrêa, número 300.

 

O que é o guaraná?

Planta encontrada no Brasil, Venezuela e Guianas, o guaraná tem um fruto que recebeu este nome em homenagem aos índios guaranis. Em nosso país, ele é encontrado com mais frequência na região amazônica.

 

Segundo o nutricionista Leandro Freire, a fruta possui substâncias que estimulam o sistema nervoso central, como, por exemplo, a cafeína. “Quando as pessoas tomam, ele aumenta o fator adrenérgico, ou seja, aumenta a adrenalina, deixa a pessoa mais alerta. Por isso, que é sempre usado como estimulante”, explica.

 

A família Tibiriçá afirma, em seus panfletos, que o guaraná ralado pode “prevenir cãibras, enxaquecas, problemas gastrointestinais e até mesmo a arteriosclerose”. Além disso, pode favorecer a queima de gordura, já que acelera o metabolismo. Leandro continua: “A cafeína, em si, como aumenta a adrenalina, faz uma vasoconstrição e aumenta o batimento cardíaco, e isso aumenta a lipólise. Ele acaba sendo um termogênico nesse sentido, porque aumenta o gasto energético pelo aumento do batimento cardíaco”.

 

Tudo isso acontece porque o guaraná estimula a liberação de dopamina e de adrenalina pelo cérebro. Com efeito de seis horas no organismo, ele deve ser tomado pela manhã para não atrapalhar o sono, e, assim como outras bebidas com cafeína, pode levar ao vício. “A cafeína é uma substância que vicia, e cada vez que você toma, você vai ficando mais dependente. A partir do momento em que você não toma, pode sofrer de enxaqueca, irritabilidade, e acabar tendo que tomar mais para se saciar”, completa o nutricionista.

No entanto, não há razões para se preocupar. O indicado é tomar uma colher de chá do guaraná ralado pela manhã, em jejum, antes de iniciar qualquer atividade ou esforço físico ou mental. Para gestantes, crianças e idosos, é necessário ter mais cuidados. Segundo Leandro, antes de ingerir a substância é preciso ter certeza de que não se tem problemas cardíacos. “Quem não pode tomar é aquele indivíduo que tem problemas cardíacos como hipertensão, arritmia, insuficiência cardíaca, e pacientes que já estão num estado adrenérgico muito alto – que é o caso de pessoas muito estressadas”, alerta.

 

“As pessoas mais estressadas, que estão tomando antidepressivo, as mais ansiosas, que tomam ansiolíticos, e principalmente as ansiosas por doces não devem tomar. Porque quando se aumenta muito a adrenalina, se aumenta também a produção de cortisol, o hormônio hipoglicemiante, que faz a pessoa precisar de mais açúcar”, completa o nutricionista.

 

Do bastão do pó

Quanto Tibiriçá começou o seu negócio em Cuiabá, o que era comercializado eram somente os bastões, que são produzidos com sementes colhidas, secas e torradas socadas em um pilão, somente com água, até se transformarem em uma massa. Depois disso, elas eram levadas a uma fogueira apropriada, onde ficavam por cerca de 45 dias.

 

Os bastões eram comprados pelo empresário em Maués, a conhecida ‘cidade do Guaraná’, no Amazonas. Quatro anos depois do fatídico dia da pane no avião, ele decidiu produzir seu próprio bastão para ter mais lucro. Na época, comprava a fruta em caroço dos caboclos e índios da região.

 

Nos anos 1970, logo que a família abriu sua primeira loja em Cuiabá, o guaraná em pó não existia. Quem comprava o bastão precisava também ter uma lima para ralá-lo – ou, nos casos mais extremos, usar a língua seca do pirarucu.

 

O pó veio depois, mas feito de outra forma. Ele é reduzido da semente e moído em máquinas exclusivamente projetadas para este fim, o que mantém a qualidade do produto final. Hoje, o pó é muito mais vendido que os bastões.

 

“Temos uma clientela fiel, que vem todo mês. Tem uma variação muito grande do que eles compram. Antigamente, compravam só bastão. Aí começamos a trazer o guaraná em pó, e o pessoal começou a gostar. Hoje vendemos mais o guaraná ralado do que o bastão. Mas ainda tem os clientes que preferem o bastão para ralar em casa”, conta Tibiriçá Filho.

 

Nos últimos anos, outras novidades surgiram. Dentre elas, está o ‘xarope de guaraná’, que já vem com açúcar e serve para fazer refresco ou colocar no sorvete. Para os diabéticos, existe também a versão ‘light’, feita com aspartano. “O xarope tem muita saída. Ele é feito do extrato do guaraná, não tem as mesmas propriedades que o guaraná em pó, mas como é refrescante vende muito em lugares quentes pra fazer o suco, para fazer refresco. Coloca só água, ele já vem adoçado”, explica Rosângela Bernardes, outra filha de Tibiriçá. Junto a ela e Tibiriçá Filho, os irmãos Jorge Thompson e Ana Maria Bernardes seguem trabalhando no ‘império’ construído pelo pai.

 

Fonte: Revista Olhar Conceito (abril-2017) / Isabela Mercuri